top of page

🎙️ Semiárido 'vira o jogo' usando o sol como ferramenta de mudança

  • há 4 horas
  • 4 min de leitura

Por CHRIS SANTOS

Colunista do BLOG da SNW


Mais do que um projeto de energia, o programa 'Um Milhão de Tetos Solares' revela uma mudança estrutural no modelo energético brasileiro. A iniciativa, que nasce no semiárido, propõe inverter a lógica tradicional da geração: sair da concentração para um modelo descentralizado, com impacto direto na renda e na autonomia das famílias.


Em uma conversa com Giovanne Xenofonte, coordenador e um dos idealizadores do programa Um Milhão de Tetos Solares, uma provocação ficou clara:


“Assim como a água, a energia também ainda é concentrada.”

A fala não vem de um gabinete.


Giovanne é filho de agricultor, nascido no semiárido, e construiu sua trajetória diretamente no território. É agrônomo, com pós-graduação em gestão agroambiental e em tecnologias de baixa emissão de carbono, e há mais de 25 anos atua no fortalecimento da agricultura familiar, com base na agroecologia e na convivência com o semiárido.


Sua trajetória passa pela Articulação do Semiárido Brasileiro, onde também esteve envolvido em iniciativas como o programa Um Milhão de Cisternas, responsável por transformar o acesso à água em milhares de comunidades.


Agora, essa mesma lógica se desloca para o setor energético.


Mais do que um projeto técnico, o Um Milhão de Tetos Solares nasce como continuidade de uma experiência concreta: enfrentar a concentração de recursos e ampliar o acesso desta vez, à energia.


O que chama atenção é que não se trata de uma iniciativa que parte do topo, mas de uma construção que nasce e se organiza a partir do território.


A seguir, alguns dos principais pontos da nossa conversa.



De onde nasce o 'Um Milhão de Tetos Solares'?


Giovanne: Na época do programa de cisternas, a gente já discutia muito a concentração dos recursos hídricos. Hoje, a produção de energia também é concentrada. A construção do programa começa dentro dos próprios espaços de articulação do semiárido. A ideia ganha forma dentro de um evento: Encontro Nacional da ASA, a partir das discussões nos territórios, e se fortaleceu com a mobilização das mulheres do semiárido. O lançamento aconteceu na 17° Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, reforçando o papel dessas mulheres não só na defesa dos territórios, mas também na construção de soluções.


“Os grandes empreendimentos concentram a riqueza e impactam os territórios. O programa nasce como uma alternativa, uma saída para uma produção de energia descentralizada.”


Qual o impacto real na vida das famílias?


Giovanne: O programa tem três objetivos: conforto doméstico, aumento da produção de alimentos e a possibilidade de comercializar o excedente de energia. Isso significa mais do que acesso à energia, com três pilares básicos: mais conforto dentro de casa, mais capacidade produtiva e potencial geração de renda. E talvez a mudança mais simbólica esteja na forma de enxergar o território. Pela primeira vez, estamos partindo de um projeto da abundância: O sol. Ou seja, o semiárido deixa de ser visto como limitação e passa a ser entendido como potência.



Como o projeto começa na prática?


Giovanne: A gente começa com a formação de jovens das próprias comunidades, nas escolas-fábrica. Na primeira fase, o projeto prevê a formação de jovens dos territórios, com capacitação prática na produção e instalação dos sistemas. Cerca de 50 jovens participam inicialmente, com parte deles seguindo para a formação presencial nas escolas-fábrica, onde aprendem desde a produção dos painéis até a implementação dos sistemas.

Esses sistemas serão instalados em unidades familiares, operando no modelo off-grid, principalmente para bombeamento de água e apoio à produção agrícola. Além disso, o projeto prevê miniusinas solares que garantem o funcionamento das próprias escolas-fábrica, fortalecendo a autonomia energética local. Outro ponto relevante é o perfil das famílias atendidas: Grande parte dessas famílias tem mulheres como responsáveis pela renda e pela gestão da casa. Ou seja, o impacto também passa diretamente pelo fortalecimento econômico dessas mulheres.



Quais são os desafios para escalar?


Giovanne: Para chegar a um milhão de tetos solares, a política pública precisa assumir isso como proposta. Hoje, o projeto já conta com apoio institucional e financeiro relevante. A iniciativa é desenvolvida em parceria com a Articulação do Semiárido Brasileiro e a Fundação Banco do Brasil, com investimento de cerca de R$ 8,9 milhões. Além disso, conta com apoio internacional da Cáritas Francesa e da Agência Francesa de Desenvolvimento, somando aproximadamente R$ 1,5 milhão. O modelo ainda está em fase inicial, funcionando como base para aprendizado e expansão futura.



Como vocês pensam as parcerias do projeto?


Giovanne: A gente também tem critérios. Nem toda parceria interessa.Mais do que viabilizar financeiramente, o programa estabelece uma linha clara:

As parcerias precisam estar alinhadas com os valores do projeto e dos territórios. Empresas envolvidas em práticas que vão contra esses princípios sociais ou ambientais, não fazem parte dessa construção.

Ou seja, não se trata apenas de captar recursos, mas de garantir coerência ao longo de todo o processo.



O que diferencia esse modelo?


Giovanne: Mais do que tecnologia, o projeto busca ampliar o acesso à energia em regiões onde o consumo ainda é limitado pelo custo. Hoje, grande parte das famílias consome menos de 60 kWh por mês não por escolha, mas pelas limitações impostas pelo valor da energia. Em muitas casas do semiárido, o básico ainda é considerado luxo. O programa aposta na autonomia local.

Ao invés de depender de grandes estruturas externas, ele capacita as próprias comunidades para produzir, instalar e manter os sistemas. Além disso, evita impactos ambientais maiores, utilizando estruturas já existentes, como telhados, ao invés de grandes áreas de desmatamento.



E o que isso diz sobre o futuro da energia no Brasil?


Giovanne: No fundo, o programa propõe uma inversão importante: em vez de enxergar o semiárido como limitação, reconhece o que há de mais abundante: o sol como solução. E talvez uma das falas que melhor sintetize isso seja:


“Pela primeira vez, estamos partindo de um projeto da abundância.”

Isso não muda apenas a forma de gerar energia, muda a vida no território, ampliando renda, criando oportunidades e fortalecendo, principalmente, o protagonismo das mulheres. O que está em jogo aqui não é apenas energia. É autonomia, renda e reposicionamento de territórios historicamente à margem.



Por CHRIS SANTOS

Empresária | Diretora da Plano A Consultoria e Relacionamento


“As opiniões expressas nesta entrevista são de responsabilidade exclusiva do colunista e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial deste canal.”



Comentários


  • Instagram
  • LinkedIn

©2020 por SNW.SOL Marketing. Todos os direitos reservados.

bottom of page