O Nordeste não é ilha: é autossuficiente, exportador de energia elétrica - e isso incomoda alguns
- há 20 horas
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Por DANIEL LIMA
ECOnomista, Colunista do BLOG da SNW
Há quem insista em tratar o Nordeste como um sistema “ilhado” por culpa da geração distribuída (MMGD). É uma tese curiosa: simplifica um fenômeno complexo, ignora quase tudo o que realmente explica o comportamento do sistema elétrico e, claro, rende manchetes fáceis. Culpar a GD virou um esporte nacional — daqueles em que alguns jogam sem conhecer as regras.
O Nordeste não cresceu apenas em GD. Cresceu em tudo. Tornou-se o maior polo de geração renovável do país, com uma expansão monumental de usinas solares e eólicas centralizadas. Hoje, concentra a maior parte da capacidade eólica nacional e uma fatia generosa da solar centralizada. Se existe um excedente estrutural de energia, ele nasce dessas usinas — não dos telhados fotovoltaicos que tanto incomodam certos críticos contumazes.
E, ironicamente, a GD do Nordeste é pequena. Somando apenas a potência instalada de Minas Gerais e São Paulo já ultrapassa em 20% a GD do NE. Se a GD fosse mesmo o vilão da história, o Sudeste deveria estar em pane permanente — mas não está. Talvez porque o problema não seja técnico, e sim de narrativa. E alguns narradores adoram um culpado conveniente.
A famosa “barriga do pato”, que aparece nos gráficos do ONS, também não é culpa da GD. É resultado da migração acelerada para o mercado livre, que reduziu a carga coordenada e mudou a forma como a demanda aparece para o sistema. O pato, portanto, é livre — e não distribuído. Mas sempre aparece alguém disposto a culpar o pato errado.
O episódio do domingo, com fluxos reduzidos e submercados operando quase isolados, é o tipo de operação que o ONS faz há anos. Quando há excesso de geração e limites de transmissão, o operador age para preservar a estabilidade. É o manual da boa prática, não um sinal de crise. E os cortes de geração, vale lembrar, atingem justamente as usinas centralizadas — aquelas mesmas que desaparecem magicamente quando chega a hora de apontar responsabilidades.
Culpar a GD é tecnicamente incorreto e intelectualmente preguiçoso. A GD é parte da modernização do setor elétrico: reduz perdas, aumenta resiliência, democratiza o acesso à energia e, para desespero de alguns, funciona. O verdadeiro desafio está na infraestrutura de transmissão e na ausência quase completa de armazenamento em baterias, que se tornou estratégico na nova dinâmica da demanda.

O Nordeste não é ilha. É autossuficiente, exportador e protagonista da transição energética brasileira. Produz mais do que consome, exporta o excedente e ainda é acusado de “exagerar”. Talvez o incômodo venha justamente daí — de ver uma região historicamente tratada como dependente se tornar o coração renovável do país. E isso, para alguns, é difícil de engolir.
Daniel Lima
Empresário | Diretor Executivo da AGROSOLAR Investimentos Sustentáveis
Presidente | ANESOLAR (Associação Nordestina de Energia Solar)
Vice-Presidente | ARMAZENE (Associação Brasileira de Armazenamento de Energia)
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