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Energia competitiva: o poder econômico do Brasil

3 de ago.
7 min de leitura

Por DANIEL LIMA

ECOnomista, Colunista do BLOG da SNW


O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo e um potencial renovável capaz de sustentar a economia digital, a reindustrialização verde e novos setores produtivos intensivos em energia. Apesar disso, empresas e investidores convivem com custos crescentes, infraestrutura de ineficiente, instabilidade regulatória, volatilidade de preços e perda de competitividade. Sem energia competitiva, o país não apenas deixa de atrair novos empreendimentos, como compromete a capacidade produtiva já instalada.



Energia competitiva como base da nova economia


A energia elétrica tornou-se o principal fator de competitividade da economia moderna. Cadeias produtivas estratégicas — como data centers de inteligência artificial, computação em nuvem, hidrogênio de baixo carbono, mineração sustentável, fertilizantes verdes, indústria química e eletromobilidade — dependem de acesso a energia renovável, confiável e com o menor custo previsível.


Hoje, a energia define:


  • onde indústrias eletrointensivas serão instaladas;

  • onde hubs digitais serão construídos;

  • onde cadeias de hidrogênio verde se desenvolverão;

  • onde regiões poderão se reindustrializar.


O setor elétrico deixou de ser apenas infraestrutura: tornou-se indutor de novos negócios.



Custos crescentes e volatilidade: o risco à competitividade


Entre 2024 e 2026, os contratos trimestrais do mercado livre subiram de R$ 143/MWh para R$ 317/MWh — alta de 121%, muito acima da inflação oficial. Em cenários de hidrologia adversa, projeções indicam valores próximos de R$ 1.000/MWh, patamar de acionamento intenso de térmicas.


A volatilidade também aumentou. Oscilações que antes eram de R$ 60 a R$ 70/MWh passaram a superar R$ 200/MWh em curtos intervalos, dificultando o planejamento financeiro de consumidores eletrointensivos.


No curto prazo, o PLD mostra outro desafio: a diferença entre o preço do período solar (10h–15h) e o da ponta (17h–21h) mais que dobrou. No Nordeste, o preço da ponta chegou a ser 2,24 vezes maior que o do período diurno. Isso evidencia a necessidade de sinais horários mais eficientes, mecanismos de flexibilidade e integração entre oferta e demanda.



Encargos, CDE e ERCAP: quando o custo sistêmico se torna barreira


A Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) cresceu de R$ 23 bilhões em 2022 para mais de R$ 52 bilhões em 2026 — alta de 129%. Mesmo com o teto aprovado pelo Congresso, a base de custos permanece elevada.


Além disso, novos encargos associados à segurança e operação do sistema, como o ERCAP (reserva de capacidade), ampliam a complexidade regulatória. O ERCAP, hoje na casa dos bilhões anuais, pode chegar a quase R$ 48 bilhões na próxima década se não houver revisão integrada.


O consumidor paga não apenas pela energia, mas por uma soma de encargos que muitas vezes não são transparentes nem avaliados quanto à eficiência econômica.


Transferir despesas que deveriam ser contempladas no orçamento da união para o consumidor pagar via conta de energia está sendo um certeiro tiro no pé.



Curtailment: desperdício de energia limpa e aumento de custos


Em 2025, o Brasil deixou de aproveitar quase 20% da energia eólica e solar disponível, gerando prejuízo de R$ 6 bilhões. Em 2026, o impacto financeiro triplicou em relação ao ano anterior.


O país desperdiça energia renovável ao mesmo tempo em que enfrenta preços elevados e acionamento de térmicas. Isso mostra que o desafio não é apenas ampliar a oferta, mas organizar melhor o funcionamento do sistema elétrico.


A expansão renovável precisa ser acompanhada por:


  • transmissão proporcional ao crescimento da geração;

  • armazenamento de energia;

  • flexibilidade operativa;

  • resposta da demanda;

  • regras claras de acesso e operação;

  • mecanismos competitivos de potência e serviços de sistema.


Quando isso não acontece, os custos são incorporados nas tarifas de energia.



Nordeste: o novo hub digital e energético do Brasil


O Nordeste reúne condições únicas para se tornar um dos maiores polos energéticos e digitais do mundo. A região combina:


  • potencial solar e eólico excepcional;

  • proximidade portuária;

  • disponibilidade de áreas;

  • interesse crescente em hidrogênio verde e combustíveis sintéticos;

  • demanda de grandes players por energia limpa e competitiva.


Com energia renovável abundante e confiável, o Nordeste pode ser:


  • hub energético, fornecendo energia limpa e exportando moléculas verdes;

  • hub digital, atraindo data centers e infraestrutura de IA;

  • hub industrial, recebendo indústrias eletrointensivas.


Mas isso depende de vontade política, competitividade energética, estabilidade regulatória e infraestrutura adequada.



A inflação invisível da energia


Enquanto o IPCA avança poucos pontos percentuais ao ano, tarifas de energia sobem 10%, 15% ou 20%. Como energia pesa apenas cerca de 4% no IPCA, essa pressão não aparece nos indicadores oficiais — mas aparece no bolso das famílias e no caixa das empresas.


Essa inflação invisível:


  • reduz renda disponível;

  • aumenta inadimplência;

  • comprime margens;

  • eleva preços;

  • adia investimentos;

  • reduz competitividade.


É um problema estrutural, não conjuntural.



Encarar a MMGD como vetor econômico e sistêmico


A Micro e Minigeração Distribuída (MMGD), que em julho de 2026 conta com 53,3 GW de potência instalada por todo o Brasil — segunda maior fonte da Matriz, é frequentemente analisada apenas pelo impacto na CDE. Mas seus benefícios sistêmicos são muito maiores:


Impactos na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE)


  • Subsídio anual via CDE: R$ 10,4 bilhões (impacto líquido até junho de 2026), previsão de alcançar R$ 21 bilhões/ano em 2026;

  • Considerando que são 5,4 milhões de unidades consumidoras residenciais beneficiadas com a MMGD e que juntas somam 27,3 GW (51% do total) de potência, chegamos a um subsídio mensal de cerca de R$ 165,00/mês por UC e que são acrescidos a renda familiar.


Impactos no setor elétrico e na economia


  • Redução do despacho térmico: Economia estimada entre R$ 8 e R$ 12 bilhões/ano ao evitar térmicas de R$ 1.000–2.000/MWh.

  • Redução de bandeiras tarifárias: Economia entre R$ 3 e R$ 6 bilhões/ano ao reduzir o CMO e atrasar o acionamento das bandeiras.

  • Redução de perdas técnicas: Economia entre R$ 1 e R$ 2 bilhões/ano pela geração próxima da carga.

  • Postergação de investimentos em rede: Economia entre R$ 2 e R$ 4 bilhões/ano em alimentadores, transformadores e subestações.

  • Redução do risco hidrológico: Economia entre R$ 1 e R$ 3 bilhões/ano ao preservar reservatórios.

  • Benefícios sistêmicos adicionais: Entre R$ 1 e R$ 2 bilhões/ano (redução de perdas comerciais, maior confiabilidade, menor EENS).

  • Empregos gerados (2012–2026): 2,1 milhões de empregos diretos, indiretos e induzidos.

  • Arrecadação tributária (2012–2026): R$ 100,7 bilhões em tributos federais, estaduais e municipais.

  • Renda preservada (anual): Entre R$ 14 e R$ 24 bilhões/ano para 8 milhões de unidades consumidoras com GD.

  • Benefício total anual estimado R$ 33 e R$ 54 bilhões/ano (sem considerar os impactos em empregos e tributos gerados).

  • Relação benefício/custo anual: Para cada R$ 1,0 de subsídio, o país tem de retorno entre R$ 1,6 e R$ 2,6 em benefícios sociais e econômicos.



Armazenamento (BESS): a chave para se alcançar a energia competitiva


Sem armazenamento, a energia solar e eólica são subutilizadas. Com armazenamento, tornam-se vetor completo de flexibilidade que se traduz diretamente em competitividade.


Com 53 GW de geração distribuída já instalados, com armazenamento de energia e em curtíssimo prazo, o país poderia absorver grandes volumes de excedentes solares durante o dia e liberar essa energia à noite, reduzindo vertimentos, diminuindo acionamento térmico, oferecendo serviços ancilares essenciais e barateando o custo da energia.


Países como Alemanha, Austrália e Estados Unidos já tratam o armazenamento como infraestrutura crítica e estratégica há anos, com incentivos e programas de Virtual Power Plants.


Enquanto esses países avançaram rapidamente, o Brasil, depois de anos de atraso,  finalmente se prepara para entrar no jogo global do armazenamento, reconhecendo que baterias são essenciais para lidar com a variabilidade das fontes não despacháveis e para reduzir a dependência de térmicas caras.


O marco mais importante dessa virada é a realização do primeiro leilão de armazenamento em baterias (BESS), um movimento histórico que coloca o país na rota das nações que já tratam o armazenamento como ativo estratégico. Esse leilão inaugura uma nova fase: pela primeira vez, o armazenamento será contratado como recurso de sistema, capaz de suavizar rampas, reduzir custos operativos, aumentar a confiabilidade e preparar o SIN para uma economia intensiva em energia limpa.


O país começa, enfim, a adotar o remédio que ignorou por anos — e que pode transformar flexibilidade em vetor de estabilidade, competitividade e desenvolvimento econômico.



Uma Agenda Nacional de Competitividade Energética


O Brasil precisa de uma agenda coordenada que envolva governo, Congresso, reguladores, setor produtivo e sociedade. Essa agenda deve incluir:


  • planejamento energético integrado de longo prazo;

  • expansão da transmissão e modernização da operação;

  • integração de armazenamento de energia e flexibilidade;

  • estímulo ao consumo competitivo e à produção de bens verdes;

  • segurança jurídica e previsibilidade regulatória;

  • disciplina e transparência dos encargos;

  • revisão periódica de subsídios;

  • formação de preços com sinais horários eficientes;

  • coordenação entre política energética, industrial e climática.



Economia Estratégica da Energia: o conceito que organiza o futuro do setor elétrico


A Economia Estratégica da Energia, conceito que desenvolvi ao longo de anos de pesquisa e atuação no setor elétrico, parte de uma premissa simples e decisiva: energia não é apenas insumo — é poder econômico. Em um mundo digital, eletrificado e orientado por dados, a energia passa a determinar a geografia produtiva, a competitividade industrial, a capacidade de inovação e o posicionamento internacional dos países.


É uma mudança de paradigma: o setor elétrico deixa de ser tratado como tema tarifário ou regulatório e passa a ser entendido como poder econômico que define a competitividade e o futuro produtivo do Brasil.


Esse conceito se apoia em cinco pilares:


1. Energia como vantagem competitiva sistêmica


Países que oferecem energia limpa, barata e confiável atraem indústrias eletrointensivas, hubs digitais, cadeias de hidrogênio verde e investimentos de longo prazo. Energia competitiva se torna equivalente ao que, no século XX, foram portos, ferrovias e grandes centros urbanos.


2. Integração entre política energética, industrial e climática


A Economia Estratégica rompe a fragmentação institucional. Energia deixa de ser tratada como tema setorial e passa a orientar políticas industriais, tecnológicas, de inovação, comércio exterior e desenvolvimento regional.


3. Eficiência sistêmica como critério central


Não basta expandir geração. É preciso reduzir desperdícios, otimizar operação, integrar armazenamento, modernizar transmissão, incentivar resposta da demanda e revisar encargos com base em eficiência econômica — não em decisões isoladas.


4. Flexibilidade como infraestrutura crítica


Sistemas elétricos modernos dependem de flexibilidade para integrar renováveis, reduzir custos e garantir confiabilidade. Armazenamento, serviços ancilares, gestão de carga e digitalização deixam de ser acessórios e passam a ser pilares da competitividade.


5. Energia como instrumento de reindustrialização e inclusão produtiva


A Economia Estratégica reconhece que energia competitiva é condição para gerar empregos qualificados, atrair investimentos, desenvolver regiões e criar cadeias produtivas — especialmente no Nordeste, que reúne potencial renovável único no mundo.



Por que a Economia Estratégica é essencial para o Brasil agora


O Brasil vive uma contradição: possui a matriz mais renovável entre grandes economias, mas enfrenta custos crescentes, encargos explosivos, desperdício de energia limpa e volatilidade que afasta investimentos.

A Economia Estratégica oferece o enquadramento necessário para transformar esse potencial em desenvolvimento real. Ela permite:


  • enxergar encargos como política econômica, não apenas como tarifa;

  • tratar armazenamento como infraestrutura nacional;

  • integrar MMGD como vetor sistêmico, não como subsídio isolado;

  • planejar transmissão como instrumento de competitividade;

  • alinhar energia com reindustrialização, digitalização e economia verde;

  • posicionar o Brasil como potência energética e produtiva global.


Sem essa visão estratégica, o país continuará desperdiçando energia, oportunidades e competitividade.


Com ela, o Brasil pode liderar a economia do século XXI.



Daniel Lima 

Empresário | Diretor Executivo da AGROSOLAR Investimentos Sustentáveis

Presidente | ANESOLAR (Associação Nordestina de Energia Solar)

Vice-Presidente | ARMAZENE (Associação Brasileira de Armazenamento de Energia)


“As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do colunista e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial deste canal.”





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