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A Guerra contra as renováveis: EUA x Brasil

  • há 7 horas
  • 4 min de leitura

Dois cenários, a mesma resistência ao futuro


Por DANIEL LIMA

ECOnomista, Colunista do BLOG da SNW



A transição energética global deixou de ser uma tendência para se tornar uma necessidade econômica, ambiental e geopolítica. Ainda assim, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, setores políticos e institucionais resistem ao avanço das fontes renováveis — cada um à sua maneira, mas com paralelos surpreendentes.


Nos EUA, o governo Trump trava uma batalha aberta contra a energia limpa, tentando desacelerar investimentos e favorecer combustíveis fósseis. No Brasil, a guerra é mais silenciosa, travada dentro de gabinetes e por meio de decisões tributárias e de planejamento que, na prática, penalizam o setor renovável e favorecem soluções caras e ultrapassadas.


O resultado é o mesmo: um atraso estratégico que custa caro ao país e ao consumidor.



1. A Guerra Declarada nos EUA


Segundo análises recentes, Donald Trump tem tentado reverter avanços da política energética americana, reduzindo incentivos e criando barreiras para renováveis. Ainda assim, o setor cresce — impulsionado por economia, inovação e competitividade.


Mesmo com hostilidade política, a energia solar e eólica continuam batendo recordes, porque são simplesmente mais baratas que carvão e gás em grande parte do território americano.


Ou seja: a realidade econômica está vencendo a ideologia.



2. A Guerra Velada no Brasil


No Brasil, a resistência às renováveis não se dá por discursos inflamados, mas por decisões institucionais que sabotam o setor de dentro para fora.



2.1. O lobby institucional e a narrativa distorcida


Diretores de órgãos estatais frequentemente atribuem às renováveis os problemas do sistema elétrico — como curtailment, instabilidade e necessidade de despacho térmico. Mas essa narrativa ignora um fato básico:


O problema não é a energia renovável — é a falta de planejamento para integrá-la.


O Brasil sabia há mais de uma década que a participação de eólicas e solares cresceria rapidamente. Ainda assim, não expandiu linhas de transmissão, não modernizou o sistema, não investiu em armazenamento.


A culpa não é do vento nem do sol. A culpa é da omissão.


2.2. Aumento de impostos: o Brasil na contramão do mundo


Enquanto países como Austrália, Alemanha e EUA incentivam:


  • módulos solares

  • inversores

  • baterias (BESS)

  • geração distribuída

  • armazenamento residencial e comercial


…o Brasil aumenta a carga tributária sobre esses mesmos equipamentos.


Isso encarece projetos, reduz competitividade e afasta investimentos — justamente quando o país deveria estar acelerando a transição energética.



2.3. O absurdo dos cortes de energia e o leilão de térmicas


O episódio mais emblemático dessa contradição é o seguinte:


  • Parques eólicos e solares no Nordeste têm sua produção cortada (curtailment).

  • Em vez de usar isso como justificativa para aumentar a capacidade de armazenamento,

  • o governo decide realizar um leilão de térmicas, muitas delas instaladas no próprio Nordeste, região que já produz energia limpa e barata.


E o pior:


O preço de compra dessas térmicas ultrapassa R$ 2.000 por MWh.

Isso em um país onde:


  • a indústria já sofre com tarifas elevadas

  • consumidores residenciais sacrificam renda para pagar a conta de luz

  • o potencial renovável é um dos maiores do planeta


É uma escolha que desafia a lógica econômica, ambiental e social.



3. A Contradição Política: Quando a Esquerda Age Como a Extrema Direita


O ponto mais irônico — e preocupante — é que esse retrocesso ocorre em um governo de esquerda, que historicamente defende:


  • sustentabilidade

  • planejamento estatal

  • redução de desigualdades

  • tarifas acessíveis

  • transição energética


Mas, na prática, o que se vê no setor elétrico é:


  • aumento de impostos sobre energia limpa

  • favorecimento de térmicas caras e poluentes

  • ausência de políticas robustas de armazenamento

  • manutenção de estruturas regulatórias que penalizam renováveis


É um desalinhamento entre discurso e ação que compromete o futuro energético do país.



4. O Que os Dois Países Revelam


Apesar das diferenças políticas, EUA e Brasil mostram um padrão comum:


A transição energética não é barrada por falta de tecnologia — é barrada por interesses.


Nos EUA, interesses fósseis pressionam politicamente. No Brasil, interesses fósseis pressionam institucionalmente.


Mas há uma diferença crucial:


  • Nos EUA, o mercado está vencendo a política.

  • No Brasil, a política está vencendo o mercado — e o consumidor paga a conta.



5. A Guerra Contra as Renováveis é uma Guerra Contra o Futuro


A evolução energética é inevitável. A questão é: quem vai liderar e quem vai ficar para trás.


O Brasil tem tudo para ser uma potência mundial em energia limpa:


  • sol abundante

  • ventos constantes

  • biomassa

  • hidrelétricas

  • potencial gigantesco de armazenamento

  • indústria instalada

  • mão de obra qualificada


Mas continua tropeçando nas próprias escolhas.


Enquanto isso, países que entenderam o jogo — Austrália, China, EUA, Alemanha — aceleram investimentos, reduzem custos e atraem indústrias.


A guerra contra as renováveis não é apenas uma disputa tecnológica. É uma disputa por competitividade, soberania e desenvolvimento.


E, no Brasil, essa guerra está sendo perdida não por falta de recursos, mas por interesses nada republicanos.



Daniel Lima 

Empresário | Diretor Executivo da AGROSOLAR Investimentos Sustentáveis

Presidente | ANESOLAR (Associação Nordestina de Energia Solar)

Vice-Presidente | ARMAZENE (Associação Brasileira de Armazenamento de Energia)


“As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do colunista e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial deste canal.”



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