A Guerra contra as renováveis: EUA x Brasil
- há 7 horas
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Dois cenários, a mesma resistência ao futuro
Por DANIEL LIMA
ECOnomista, Colunista do BLOG da SNW

A transição energética global deixou de ser uma tendência para se tornar uma necessidade econômica, ambiental e geopolítica. Ainda assim, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, setores políticos e institucionais resistem ao avanço das fontes renováveis — cada um à sua maneira, mas com paralelos surpreendentes.
Nos EUA, o governo Trump trava uma batalha aberta contra a energia limpa, tentando desacelerar investimentos e favorecer combustíveis fósseis. No Brasil, a guerra é mais silenciosa, travada dentro de gabinetes e por meio de decisões tributárias e de planejamento que, na prática, penalizam o setor renovável e favorecem soluções caras e ultrapassadas.
O resultado é o mesmo: um atraso estratégico que custa caro ao país e ao consumidor.
1. A Guerra Declarada nos EUA
Segundo análises recentes, Donald Trump tem tentado reverter avanços da política energética americana, reduzindo incentivos e criando barreiras para renováveis. Ainda assim, o setor cresce — impulsionado por economia, inovação e competitividade.
Mesmo com hostilidade política, a energia solar e eólica continuam batendo recordes, porque são simplesmente mais baratas que carvão e gás em grande parte do território americano.
Ou seja: a realidade econômica está vencendo a ideologia.
2. A Guerra Velada no Brasil
No Brasil, a resistência às renováveis não se dá por discursos inflamados, mas por decisões institucionais que sabotam o setor de dentro para fora.
2.1. O lobby institucional e a narrativa distorcida
Diretores de órgãos estatais frequentemente atribuem às renováveis os problemas do sistema elétrico — como curtailment, instabilidade e necessidade de despacho térmico. Mas essa narrativa ignora um fato básico:
O problema não é a energia renovável — é a falta de planejamento para integrá-la.
O Brasil sabia há mais de uma década que a participação de eólicas e solares cresceria rapidamente. Ainda assim, não expandiu linhas de transmissão, não modernizou o sistema, não investiu em armazenamento.
A culpa não é do vento nem do sol. A culpa é da omissão.
2.2. Aumento de impostos: o Brasil na contramão do mundo
Enquanto países como Austrália, Alemanha e EUA incentivam:
módulos solares
inversores
baterias (BESS)
geração distribuída
armazenamento residencial e comercial
…o Brasil aumenta a carga tributária sobre esses mesmos equipamentos.
Isso encarece projetos, reduz competitividade e afasta investimentos — justamente quando o país deveria estar acelerando a transição energética.
2.3. O absurdo dos cortes de energia e o leilão de térmicas
O episódio mais emblemático dessa contradição é o seguinte:
Parques eólicos e solares no Nordeste têm sua produção cortada (curtailment).
Em vez de usar isso como justificativa para aumentar a capacidade de armazenamento,
o governo decide realizar um leilão de térmicas, muitas delas instaladas no próprio Nordeste, região que já produz energia limpa e barata.
E o pior:
O preço de compra dessas térmicas ultrapassa R$ 2.000 por MWh.
Isso em um país onde:
a indústria já sofre com tarifas elevadas
consumidores residenciais sacrificam renda para pagar a conta de luz
o potencial renovável é um dos maiores do planeta
É uma escolha que desafia a lógica econômica, ambiental e social.
3. A Contradição Política: Quando a Esquerda Age Como a Extrema Direita
O ponto mais irônico — e preocupante — é que esse retrocesso ocorre em um governo de esquerda, que historicamente defende:
sustentabilidade
planejamento estatal
redução de desigualdades
tarifas acessíveis
transição energética
Mas, na prática, o que se vê no setor elétrico é:
aumento de impostos sobre energia limpa
favorecimento de térmicas caras e poluentes
ausência de políticas robustas de armazenamento
manutenção de estruturas regulatórias que penalizam renováveis
É um desalinhamento entre discurso e ação que compromete o futuro energético do país.
4. O Que os Dois Países Revelam
Apesar das diferenças políticas, EUA e Brasil mostram um padrão comum:
A transição energética não é barrada por falta de tecnologia — é barrada por interesses.
Nos EUA, interesses fósseis pressionam politicamente. No Brasil, interesses fósseis pressionam institucionalmente.
Mas há uma diferença crucial:
Nos EUA, o mercado está vencendo a política.
No Brasil, a política está vencendo o mercado — e o consumidor paga a conta.
5. A Guerra Contra as Renováveis é uma Guerra Contra o Futuro
A evolução energética é inevitável. A questão é: quem vai liderar e quem vai ficar para trás.
O Brasil tem tudo para ser uma potência mundial em energia limpa:
sol abundante
ventos constantes
biomassa
hidrelétricas
potencial gigantesco de armazenamento
indústria instalada
mão de obra qualificada
Mas continua tropeçando nas próprias escolhas.
Enquanto isso, países que entenderam o jogo — Austrália, China, EUA, Alemanha — aceleram investimentos, reduzem custos e atraem indústrias.
A guerra contra as renováveis não é apenas uma disputa tecnológica. É uma disputa por competitividade, soberania e desenvolvimento.
E, no Brasil, essa guerra está sendo perdida não por falta de recursos, mas por interesses nada republicanos.
Daniel Lima
Empresário | Diretor Executivo da AGROSOLAR Investimentos Sustentáveis
Presidente | ANESOLAR (Associação Nordestina de Energia Solar)
Vice-Presidente | ARMAZENE (Associação Brasileira de Armazenamento de Energia)
“As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do colunista e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial deste canal.”




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