O doente que não quer sarar: a crônica de um setor elétrico viciado em paliativos

Por DANIEL LIMA
ECOnomista, Colunista do BLOG da SNW
O setor elétrico brasileiro lembra um paciente crônico que, diante da dor, recusa tratamento real e insiste em analgésicos. Ele sabe que o problema é profundo, sistêmico, acumulado ao longo de décadas. Mas, em vez de enfrentar a causa, prefere soluções rápidas, baratas e temporárias — aquelas que aliviam hoje e agravam amanhã.
É o doente que não quer sarar.
Sintoma 1: A febre tarifária
As tarifas sobem porque os custos estruturais sobem. Encargos como CDE, ESS, ERCAP, subsídios, térmicas inflexíveis, transmissão e distribuição cada vez mais cara — tudo isso pressiona a conta de luz mês após mês.
A febre está aí, visível. Mas o paciente insiste: “Vamos tomar um comprimido e fingir que passou”.
Sintoma 2: O analgésico do momento
A medida mais recente — usar bilhões antecipados do UBP para reduzir tarifas — é exatamente isso: um analgésico.
Funciona? Sim, como qualquer analgésico.
Resolve? Não. Porque não mexe em nenhuma das causas da febre.
É dinheiro extraordinário, usado para dar a sensação de que a conta está “sob controle”. Mas é só isso: sensação.
Quando o efeito passa, a febre volta. E volta mais alta.
Sintoma 3: A recusa ao tratamento
O setor elétrico brasileiro tem medo de enfrentar seus próprios diagnósticos:
Recursos que deveriam estar no orçamento da união são transferidos para as tarifas de energia na forma de subsídios que se multiplicam sem avaliação de impacto.
Leilões que contratam potência cara sem planejamento integrado.
Encargos que crescem mais rápido que a inflação.
Uma CDE que virou um cofre de tudo que o governo não quer discutir.
Um mercado regulado engessado que é avesso as leis de mercado e sem competição real.
É como se o médico dissesse: “Precisamos mudar hábitos, rever práticas, fazer cirurgia, reabilitação”.
E o paciente respondesse: “Não, doutor. Me dá só mais um remédio para passar a dor”.
Sintoma 4: A dependência
O setor virou dependente de paliativos:
Empréstimos bilionários para segurar tarifas.
Abatimentos temporários.
Realocação de recursos extraordinários.
Medidas emergenciais que viram rotina.
É um vício. E como todo vício, cria tolerância: cada vez é preciso mais para gerar o mesmo alívio.
Sintoma 5: A ilusão da melhora
Quando o governo anuncia redução tarifária, o paciente sorri. “Viu? Estou melhorando.”
Mas não está. Está apenas anestesiado por mais uma dose de uma droga qualquer.
A doença continua avançando: custos estruturais crescem, encargos se acumulam, investimentos se tornam mais caros, riscos aumentam.
A conta sempre chega. E chega maior.
Sintoma 6: Aqueles que lucram com a hipocondria
Todo sistema doente atrai quem se beneficia da doença. No setor elétrico não é diferente. Há agentes que prosperam justamente porque o paciente continua fraco, dependente e cheio de dores. São empresas, grupos de interesse e estruturas que lucram com a complexidade, com a confusão e com a manutenção permanente do estado de emergência.
A hipocondria tarifária — essa sensação constante de que a conta de luz está sempre à beira de um colapso — alimenta negócios inteiros. Quanto mais o paciente teme a próxima febre, mais espaço existe para soluções milagrosas, contratos emergenciais, medidas provisórias, empréstimos bilionários, subsídios improvisados e remendos regulatórios que nunca atacam a causa, mas sempre geram receita para alguém.
Há quem ganhe com encargos crescentes. Há quem ganhe com subsídios que nunca acabam. Há quem ganhe com térmicas caras e inflexíveis. Há quem ganhe com a expansão infinita da transmissão. Há quem ganhe com a burocracia que impede o mercado de funcionar. Há quem ganhe com a dependência do consumidor.
E, como em qualquer sistema onde alguns lucram com a doença, esses grupos se tornam defensores fervorosos do status quo. Eles não querem cura. Querem tratamento eterno. Querem o paciente sempre preocupado, sempre vulnerável, sempre dependente de soluções que eles mesmos vendem.
A hipocondria do setor elétrico não é apenas um sintoma: é um negócio. E enquanto esse negócio for lucrativo, a cura será sempre adiada.
O diagnóstico final
O setor elétrico brasileiro não sofre por falta de soluções. Sofre por falta de coragem.
Coragem para:
Revisar subsídios.
Redesenhar encargos.
Planejar capacidade com racionalidade.
Reduzir distorções.
Enfrentar interesses.
Modernizar regras.
Abrir mercado.
Enquanto isso não acontece, continuaremos presos ao ciclo do doente que não quer sarar: aquele que prefere o alívio imediato à cura duradoura.
E o prognóstico?
Se nada mudar, o futuro é previsível: mais febre, mais dor, mais remédios, mais dependência.
Mas se o setor decidir finalmente se tratar, há chance de reabilitação. A cura existe — só falta vontade.
Como alcançar a Cura?
O setor elétrico brasileiro só vai sair da condição de paciente crônico quando iniciar um tratamento real, consistente e contínuo. As etapas abaixo representam o caminho necessário para transformar um sistema viciado em paliativos em um organismo saudável, competitivo e sustentável.
Tratamento 1 - Remover da tarifa aquilo que não é energia
Etapa essencial para iniciar o tratamento. A conta de luz carrega custos que deveriam estar no orçamento público, não no bolso do consumidor. Transferir subsídios e programas sociais para o orçamento da União reduz distorções e devolve transparência ao sistema.
Tratamento 2 - Reduzir a carga tributária sobre um insumo essencial
A energia elétrica precisa deixar de ser tratada como produto supérfluo. Rever alíquotas estaduais e criar modelos tributários mais inteligentes é uma das formas mais rápidas de aliviar famílias e empresas. É o primeiro remédio contínuo que estabiliza o paciente.
Tratamento 3 - Modernizar redes para reduzir perdas e furtos
O sistema perde energia como um corpo que perde sangue. Investir em redes inteligentes, automação e medição digital reduz desperdícios e melhora a qualidade do serviço. É a fisioterapia que fortalece o organismo e evita recaídas.
Tratamento 4 - Reestruturar distribuidoras ineficientes
Distribuidoras ineficientes repassam seus custos ao consumidor, perpetuando a doença. Auditorias, metas de desempenho e incentivos à digitalização são etapas fundamentais para transformar essas empresas em agentes de eficiência. É a reabilitação intensiva que exige disciplina, mas muda a trajetória do paciente.
Tratamento 5 - Incentivar geração distribuída integrada ao armazenamento de energia para devolver autonomia ao consumidor
A geração distribuída é o primeiro passo para que famílias, empresas e prédios públicos produzam parte da própria energia. Mas, sozinha, ela ainda deixa o consumidor dependente da rede nos momentos em que o sol não está disponível. A verdadeira autonomia surge quando a geração distribuída é combinada com sistemas de armazenamento — baterias residenciais, bancos de baterias comerciais, micro-redes e soluções híbridas.
Integrar GD com armazenamento permite que o consumidor:
use sua própria energia mesmo à noite
reduza a dependência da rede em horários de pico
alivie a pressão sobre o sistema elétrico
diminua custos com bandeiras tarifárias
aumente a resiliência em interrupções
participe de mercados de flexibilidade e serviços ancilares
Linhas de crédito acessíveis, incentivos regulatórios e programas de democratização da energia solar com baterias podem transformar essa etapa em política pública de impacto. É o paciente aprendendo não apenas a cuidar de si mesmo, mas a construir sua própria imunidade energética.
Tratamento 6 - Criar tarifas regionais competitivas
Regiões que produzem energia barata não podem continuar pagando tarifas mais altas. Modelos regionais permitem que estados produtores capturem o valor da própria energia e atraiam investimentos. É a correção metabólica que devolve equilíbrio ao corpo.
Tratamento 7 - Transformar energia em política industrial
Energia competitiva é um dos maiores fatores de atração de investimentos no mundo moderno. Tarifas especiais para setores estratégicos, estímulo a indústrias eletrointensivas e incentivos ao hidrogênio verde podem reposicionar o Brasil na economia global. É a mudança de estilo de vida que impede recaídas e cria um novo futuro.
Tratamento 8 - Integrar planejamento, regulação e mercado
O setor elétrico precisa abandonar a lógica de remendos e adotar planejamento integrado. Capacidade, transmissão, distribuição, geração distribuída e política industrial devem conversar entre si. É a etapa que organiza o tratamento e evita que o paciente volte aos velhos hábitos.
Tratamento 9 - Abrir mercado e aumentar competição
Um mercado regulado engessado não estimula eficiência nem inovação. Ampliar a liberdade de escolha, reduzir barreiras e incentivar competição melhora preços e qualidade. É o fortalecimento do sistema imunológico.
Tratamento 10 - Estabelecer coragem política para implementar o tratamento
Nenhuma etapa funciona sem decisão política. O setor elétrico brasileiro não sofre por falta de soluções, mas por falta de vontade de aplicá-las. A cura existe — mas depende de coragem.
Daniel Lima
Empresário | Diretor Executivo da AGROSOLAR Investimentos Sustentáveis
Presidente | ANESOLAR (Associação Nordestina de Energia Solar)
Vice-Presidente | ARMAZENE (Associação Brasileira de Armazenamento de Energia)
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