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O doente que não quer sarar: a crônica de um setor elétrico viciado em paliativos

há 4 horas
6 min de leitura

Por DANIEL LIMA

ECOnomista, Colunista do BLOG da SNW


O setor elétrico brasileiro lembra um paciente crônico que, diante da dor, recusa tratamento real e insiste em analgésicos. Ele sabe que o problema é profundo, sistêmico, acumulado ao longo de décadas. Mas, em vez de enfrentar a causa, prefere soluções rápidas, baratas e temporárias — aquelas que aliviam hoje e agravam amanhã.


É o doente que não quer sarar.



Sintoma 1: A febre tarifária


As tarifas sobem porque os custos estruturais sobem. Encargos como CDE, ESS, ERCAP, subsídios, térmicas inflexíveis, transmissão e distribuição cada vez mais cara — tudo isso pressiona a conta de luz mês após mês.


A febre está aí, visível. Mas o paciente insiste: “Vamos tomar um comprimido e fingir que passou”.



Sintoma 2: O analgésico do momento


A medida mais recente — usar bilhões antecipados do UBP para reduzir tarifas — é exatamente isso: um analgésico.


Funciona? Sim, como qualquer analgésico.


Resolve? Não. Porque não mexe em nenhuma das causas da febre.


É dinheiro extraordinário, usado para dar a sensação de que a conta está “sob controle”. Mas é só isso: sensação.


Quando o efeito passa, a febre volta. E volta mais alta.



Sintoma 3: A recusa ao tratamento


O setor elétrico brasileiro tem medo de enfrentar seus próprios diagnósticos:


  • Recursos que deveriam estar no orçamento da união são transferidos para as tarifas de energia na forma de subsídios que se multiplicam sem avaliação de impacto.

  • Leilões que contratam potência cara sem planejamento integrado.

  • Encargos que crescem mais rápido que a inflação.

  • Uma CDE que virou um cofre de tudo que o governo não quer discutir.

  • Um mercado regulado engessado que é avesso as leis de mercado e sem competição real.


É como se o médico dissesse: “Precisamos mudar hábitos, rever práticas, fazer cirurgia, reabilitação”.


E o paciente respondesse: “Não, doutor. Me dá só mais um remédio para passar a dor”.



Sintoma 4: A dependência


O setor virou dependente de paliativos:


  • Empréstimos bilionários para segurar tarifas.

  • Abatimentos temporários.

  • Realocação de recursos extraordinários.

  • Medidas emergenciais que viram rotina.


É um vício. E como todo vício, cria tolerância: cada vez é preciso mais para gerar o mesmo alívio.



Sintoma 5: A ilusão da melhora


Quando o governo anuncia redução tarifária, o paciente sorri. “Viu? Estou melhorando.”


Mas não está. Está apenas anestesiado por mais uma dose de uma droga qualquer.


A doença continua avançando: custos estruturais crescem, encargos se acumulam, investimentos se tornam mais caros, riscos aumentam.


A conta sempre chega. E chega maior.



Sintoma 6: Aqueles que lucram com a hipocondria


Todo sistema doente atrai quem se beneficia da doença. No setor elétrico não é diferente. Há agentes que prosperam justamente porque o paciente continua fraco, dependente e cheio de dores. São empresas, grupos de interesse e estruturas que lucram com a complexidade, com a confusão e com a manutenção permanente do estado de emergência.


A hipocondria tarifária — essa sensação constante de que a conta de luz está sempre à beira de um colapso — alimenta negócios inteiros. Quanto mais o paciente teme a próxima febre, mais espaço existe para soluções milagrosas, contratos emergenciais, medidas provisórias, empréstimos bilionários, subsídios improvisados e remendos regulatórios que nunca atacam a causa, mas sempre geram receita para alguém.


Há quem ganhe com encargos crescentes. Há quem ganhe com subsídios que nunca acabam. Há quem ganhe com térmicas caras e inflexíveis. Há quem ganhe com a expansão infinita da transmissão. Há quem ganhe com a burocracia que impede o mercado de funcionar. Há quem ganhe com a dependência do consumidor.


E, como em qualquer sistema onde alguns lucram com a doença, esses grupos se tornam defensores fervorosos do status quo. Eles não querem cura. Querem tratamento eterno. Querem o paciente sempre preocupado, sempre vulnerável, sempre dependente de soluções que eles mesmos vendem.


A hipocondria do setor elétrico não é apenas um sintoma: é um negócio. E enquanto esse negócio for lucrativo, a cura será sempre adiada.



O diagnóstico final


O setor elétrico brasileiro não sofre por falta de soluções. Sofre por falta de coragem.


Coragem para:


  • Revisar subsídios.

  • Redesenhar encargos.

  • Planejar capacidade com racionalidade.

  • Reduzir distorções.

  • Enfrentar interesses.

  • Modernizar regras.

  • Abrir mercado.


Enquanto isso não acontece, continuaremos presos ao ciclo do doente que não quer sarar: aquele que prefere o alívio imediato à cura duradoura.



E o prognóstico?


Se nada mudar, o futuro é previsível: mais febre, mais dor, mais remédios, mais dependência.


Mas se o setor decidir finalmente se tratar, há chance de reabilitação. A cura existe — só falta vontade.



Como alcançar a Cura?


O setor elétrico brasileiro só vai sair da condição de paciente crônico quando iniciar um tratamento real, consistente e contínuo. As etapas abaixo representam o caminho necessário para transformar um sistema viciado em paliativos em um organismo saudável, competitivo e sustentável.


Tratamento 1 - Remover da tarifa aquilo que não é energia

Etapa essencial para iniciar o tratamento. A conta de luz carrega custos que deveriam estar no orçamento público, não no bolso do consumidor. Transferir subsídios e programas sociais para o orçamento da União reduz distorções e devolve transparência ao sistema.


Tratamento 2 - Reduzir a carga tributária sobre um insumo essencial

A energia elétrica precisa deixar de ser tratada como produto supérfluo. Rever alíquotas estaduais e criar modelos tributários mais inteligentes é uma das formas mais rápidas de aliviar famílias e empresas. É o primeiro remédio contínuo que estabiliza o paciente.


Tratamento 3 - Modernizar redes para reduzir perdas e furtos

O sistema perde energia como um corpo que perde sangue. Investir em redes inteligentes, automação e medição digital reduz desperdícios e melhora a qualidade do serviço. É a fisioterapia que fortalece o organismo e evita recaídas.


Tratamento 4 - Reestruturar distribuidoras ineficientes

Distribuidoras ineficientes repassam seus custos ao consumidor, perpetuando a doença. Auditorias, metas de desempenho e incentivos à digitalização são etapas fundamentais para transformar essas empresas em agentes de eficiência. É a reabilitação intensiva que exige disciplina, mas muda a trajetória do paciente.


Tratamento 5 - Incentivar geração distribuída integrada ao armazenamento de energia para devolver autonomia ao consumidor

A geração distribuída é o primeiro passo para que famílias, empresas e prédios públicos produzam parte da própria energia. Mas, sozinha, ela ainda deixa o consumidor dependente da rede nos momentos em que o sol não está disponível. A verdadeira autonomia surge quando a geração distribuída é combinada com sistemas de armazenamento — baterias residenciais, bancos de baterias comerciais, micro-redes e soluções híbridas.


Integrar GD com armazenamento permite que o consumidor:


  • use sua própria energia mesmo à noite

  • reduza a dependência da rede em horários de pico

  • alivie a pressão sobre o sistema elétrico

  • diminua custos com bandeiras tarifárias

  • aumente a resiliência em interrupções

  • participe de mercados de flexibilidade e serviços ancilares


Linhas de crédito acessíveis, incentivos regulatórios e programas de democratização da energia solar com baterias podem transformar essa etapa em política pública de impacto. É o paciente aprendendo não apenas a cuidar de si mesmo, mas a construir sua própria imunidade energética.


Tratamento 6 - Criar tarifas regionais competitivas

Regiões que produzem energia barata não podem continuar pagando tarifas mais altas. Modelos regionais permitem que estados produtores capturem o valor da própria energia e atraiam investimentos. É a correção metabólica que devolve equilíbrio ao corpo.


Tratamento 7 - Transformar energia em política industrial

Energia competitiva é um dos maiores fatores de atração de investimentos no mundo moderno. Tarifas especiais para setores estratégicos, estímulo a indústrias eletrointensivas e incentivos ao hidrogênio verde podem reposicionar o Brasil na economia global. É a mudança de estilo de vida que impede recaídas e cria um novo futuro.


Tratamento 8 - Integrar planejamento, regulação e mercado

O setor elétrico precisa abandonar a lógica de remendos e adotar planejamento integrado. Capacidade, transmissão, distribuição, geração distribuída e política industrial devem conversar entre si. É a etapa que organiza o tratamento e evita que o paciente volte aos velhos hábitos.


Tratamento 9 - Abrir mercado e aumentar competição

Um mercado regulado engessado não estimula eficiência nem inovação. Ampliar a liberdade de escolha, reduzir barreiras e incentivar competição melhora preços e qualidade. É o fortalecimento do sistema imunológico.


Tratamento 10 - Estabelecer coragem política para implementar o tratamento


Nenhuma etapa funciona sem decisão política. O setor elétrico brasileiro não sofre por falta de soluções, mas por falta de vontade de aplicá-las. A cura existe — mas depende de coragem.



Daniel Lima 

Empresário | Diretor Executivo da AGROSOLAR Investimentos Sustentáveis

Presidente | ANESOLAR (Associação Nordestina de Energia Solar)

Vice-Presidente | ARMAZENE (Associação Brasileira de Armazenamento de Energia)


“As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do colunista e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial deste canal.”




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