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Infraestrutura de recarga avança no Brasil, mas ainda enfrenta desafios estruturais

  • há 18 horas
  • 6 min de leitura

Por CHRIS SANTOS

Colunista do BLOG da SNW


Infraestrutura, regulação, comportamento do consumidor e os desafios reais da eletromobilidade no país


A mobilidade elétrica deixou de ser uma promessa futura para se consolidar como uma transformação em curso no Brasil. O crescimento da frota de veículos eletrificados, a busca por soluções mais sustentáveis e o avanço da transição energética colocaram a infraestrutura de recarga no centro das discussões sobre o futuro da mobilidade.


Mas, para além do aumento no número de veículos, a pergunta que realmente importa é: o país está preparado para sustentar essa expansão?


Mais do que instalar carregadores, o desafio envolve planejamento energético, viabilidade econômica, integração com distribuidoras, segurança regulatória e visão estratégica de longo prazo.


A infraestrutura de recarga deixou de ser apenas uma questão técnica tornou-se uma decisão estratégica.


Para aprofundar esse cenário, conversamos com Márcia Loureiro, da ABVE, e Ricardo Bacellar, fundador do Papo de Garagem, dois nomes relevantes quando o assunto é mobilidade elétrica e eletromobilidade no país.


A seguir, uma análise completa sobre os desafios e oportunidades que devem definir o futuro dos eletropostos no Brasil.



A visão institucional: o papel da regulação e da previsibilidade


Segundo Márcia Loureiro, a expansão da infraestrutura de recarga ainda enfrenta quatro grandes barreiras estruturais: viabilidade econômica, viabilidade técnica, insegurança regulatória e a ausência de um Plano Nacional de Eletromobilidade com metas claras e de longo prazo para a descarbonização do transporte.


“Tecnologias baseadas em capital intensivo e com imprevisibilidade de demanda no curto prazo precisam de previsibilidade para se consolidar. Sem isso, o investimento se torna mais lento e mais cauteloso.”   Márcia Loureiro, da ABVE

A ausência de diretrizes nacionais também dificulta o avanço coordenado do setor, impactando diretamente a confiança de investidores e operadores.


Para a ABVE, o avanço da eletromobilidade depende diretamente da atuação integrada entre concessionárias, indústria e governo.


As concessionárias de energia são vistas como habilitadoras do sistema, responsáveis por garantir a capacidade da rede elétrica e a conexão eficiente dos eletropostos.


Já a indústria atua como aceleradora da infraestrutura, seja pela demanda gerada pelo setor automotivo, pelo fornecimento energético ou pelo desenvolvimento de hardware e software já que a jornada da mobilidade elétrica é, essencialmente, digital.


O governo, por sua vez, ocupa o papel de regulador e indutor desse crescimento, sendo responsável principalmente por regulação, incentivos e planejamento estratégico.


Na avaliação da ABVE, incentivos ainda são fundamentais, especialmente neste estágio inicial de maturidade do mercado.


“Iniciativas como diferenciação tarifária, redução de impostos e financiamento subsidiado reduzem o custo de implantação, favorecem o retorno sobre investimento e encurtam o payback dos projetos”, segundo Márcia Loureiro

Esse tipo de estímulo ajuda a tornar viáveis tecnologias que ainda enfrentam oscilações de demanda e altos custos iniciais de implantação.



Os números mostram avanço e urgência


Segundo levantamento recente da ABVE em parceria com a Tupi Mobilidade, o Brasil já conta com 21.061 pontos públicos e semipúblicos de carregamento, representando um crescimento de 24,7% em relação a agosto de 2025 e 42% em comparação com fevereiro do mesmo ano.


Hoje, 70% dos eletropostos oferecem recarga lenta (AC), enquanto 30% são carregadores rápidos (DC). No entanto, o maior destaque está justamente na expansão da recarga rápida: nos últimos 12 meses, os carregadores DC cresceram 167%, enquanto os AC avançaram 17%.


Para Márcia, o ambiente regulatório tem impacto direto nessa aceleração. Ela cita como exemplo a recente Lei 18.403/2026, no estado de São Paulo, que garante o direito à instalação de carregadores individuais em condomínios residenciais e comerciais, eliminando uma das principais barreiras históricas da recarga residencial.


Essa medida já teve efeito imediato no aumento de novas instalações privadas e compartilhadas.


A criação de um Plano Nacional de Eletromobilidade e o alinhamento estratégico entre indústria, distribuidoras e governo são apontados como fatores decisivos para garantir crescimento estruturado, previsibilidade e expansão sustentável da infraestrutura no país.



A visão de mercado: o consumidor e a prova do pós-venda


Para Ricardo Bacellar, a infraestrutura de recarga ainda pode ser considerada um gargalo, mas trata-se de um gargalo administrado e compatível com o estágio atual da eletromobilidade no país.


“A eletromobilidade ainda é muito nova no Brasil, e o tamanho continental do país faz com que diferentes regiões avancem em velocidades diferentes.”

Segundo ele, grandes centros urbanos têm uma dinâmica completamente diferente de regiões mais distantes do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Apesar disso, os avanços são consistentes.


“A infraestrutura está crescendo em nível exponencial. Só os carregadores rápidos cresceram 167% nos últimos 12 meses e já somam mais de 6 mil pontos”, segundo Ricardo Bacellar.

Outro fator positivo está na redução do custo de implantação desses equipamentos.


“Como toda tecnologia de ponta, à medida que ganha escala e volume, o custo unitário tende a cair.” Na avaliação dele, os investimentos atuais estão alinhados com o crescimento da frota.


“Sim, ainda existe gargalo, mas ele está bem administrado. O crescimento da infraestrutura está condizente com a expansão da frota.”


Mas para Ricardo, o verdadeiro teste do mercado não está apenas na infraestrutura. Está no pós-venda. “Tecnologia atrai. Pós-venda fideliza”, afirma.


Segundo ele, a chegada das montadoras chinesas ao Brasil acelerou fortemente o mercado de veículos eletrificados, impulsionada por tecnologia embarcada, design e políticas agressivas de preço.


Essa primeira fase foi superada com sucesso. O desafio agora está na maturidade da operação.


Ricardo é categórico: “Abrangência da rede, qualidade do atendimento, disponibilidade de peças, preços competitivos e agilidade de entrega. É isso que vai definir fidelidade.”


Será essa prova que mostrará quais marcas realmente vieram para construir presença sólida no mercado brasileiro.



O avanço dos seminovos também muda o jogo


Ricardo também chama atenção para um ponto muitas vezes ignorado nas análises sobre eletromobilidade: o crescimento acelerado dos veículos eletrificados seminovos.


“A necessidade por infraestrutura de recarga também é premente em função da venda exponencial de veículos seminovos. Não conta só a venda dos novos.”


Em 2025, o mercado de eletrificados usados no Brasil já registra crescimento superior a 100% em relação ao mesmo período de 2024.


Outro dado relevante aparece no desempenho do BYD Dolphin, que em março ocupou a segunda posição entre os carros mais vendidos do país um marco importante por se tratar de um veículo 100% elétrico.


“Só em seminovos, já ultrapassamos 38 mil veículos neste ano. Tudo indica que vamos bater um novo recorde.”


Esse cenário amplia ainda mais a pressão sobre a rede de carregamento e exige planejamento mais robusto para sustentar essa nova realidade de consumo.



O que realmente acelera ou trava a eletromobilidade


Para Ricardo, os dois fatores mais decisivos para acelerar a mobilidade elétrica no Brasil estão fora do controle direto da indústria: o custo do dinheiro e a carga tributária.


“O automóvel é o segundo produto mais caro que uma pessoa compra na vida, ficando atrás apenas do imóvel.”


Com o empobrecimento da população e a dependência crescente de financiamento, os juros altos limitam diretamente o ritmo de expansão.


“Poderíamos estar vendendo muito mais se o crédito fosse mais barato.”

Mas o fator mais nocivo, segundo ele, está nos impostos.


“Hoje, pagamos cerca de 55% de impostos sobre cada carro vendido. Isso é uma situação insustentável.” Ricardo Bacellar

Esse problema afeta tanto veículos eletrificados quanto modelos a combustão. “Não importa qual tecnologia. Esse é um problema que atinge toda a indústria.”

Estudos já apontam que uma redução tributária poderia gerar aumento expressivo nas vendas, produção industrial e geração de empregos.


Mais do que uma discussão sobre tecnologia, a consolidação da mobilidade elétrica depende da construção de um ambiente econômico viável para consumidores, fabricantes e investidores.


Sem isso, o avanço dos eletropostos continuará enfrentando limites estruturais que vão muito além da inovação.



Márcia Loureiro é Diretora Conselheira da ABVE e executiva de Desenvolvimento de Negócios com mais de 20 anos de experiência no setor de energia, com atuação em Óleo & Gás, eletromobilidade, energias renováveis, governança e inovação. Especialista em infraestrutura de recarga, viabilidade de negócios e transição energética, atua na conexão entre energia, tecnologia e novos modelos de negócio. É Engenheira de Produção, com MBA pela FGV e programas executivos internacionais em Harvard e MIT.



Ricardo Bacellar é Mestre em Administração pela PUC-RJ, conselheiro consultivo para os setores automotivo e de mobilidade e graduado como Conselheiro pelo IBGC. Com mais de 45 anos de experiência no desenvolvimento de novos mercados e soluções, atua com foco em planejamento estratégico, inovação e tecnologias disruptivas. É fundador do Papo de Garagem e referência nacional em análises sobre indústria automotiva, eletromobilidade e tendências do setor.



Por CHRIS SANTOS

Empresária | Diretora da Plano A Consultoria e Relacionamento

Colunista do BLOG da SNW


“As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do colunista e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial deste canal.”



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