Expansão das baterias residenciais (BESS) no Brasil: lições da experiência australiana
- Daniel Lima

- 19 de jan.
- 3 min de leitura

A transição energética global está em curso e a experiência australiana mostra como políticas públicas e sinais de mercado podem acelerar a adoção de baterias residenciais (Battery Energy Storage Systems – BESS). Em apenas seis meses após a introdução de um programa federal de reembolso, mais de 184.000 baterias residenciais foram instaladas, adicionando 4,3 GWh de capacidade de armazenamento.
Esse movimento não apenas beneficia os consumidores individuais, mas também remodela a curva de demanda, reduz preços e aumenta a estabilidade da rede elétrica. O Brasil, com 31,5 GW de microgeração distribuída (GD) já instalada em mais de 3 milhões de unidades consumidoras – sendo 16,5 GW e 2,5 milhões em residências – encontra-se em posição privilegiada para seguir caminho semelhante.

O Caso Australiano: Principais Lições
Escala de instalação: mais de 1.000 baterias residenciais por dia.
Capacidade crescente: tamanho médio das baterias saltou de 16 kWh para 25 kWh em poucos meses.
Mudança no perfil de exportação: antes, 70-80% da geração solar era exportada no meio do dia, pressionando preços para baixo; com baterias, a exportação migra para a noite, quando a energia é mais valiosa.
Impacto sistêmico: Redução de preços. Alívio da demanda máxima. Maior estabilidade da rede. Tarifas inteligentes que remuneram exportação noturna.

O Contexto Brasileiro
Microgeração distribuída: 31,5 GW instalados. Mais de 3 milhões de unidades consumidoras. Residencial: 16,5 GW em 2,5 milhões de casas.
Perfil atual: grande parte da energia solar é exportada durante o dia, gerando sobreoferta em horários de baixa demanda.
Potencial de mudança: com baterias, a energia solar pode ser armazenada e usada à noite, exportando em horários de pico e aumentando a confiabilidade da rede.
No Brasil, durante os períodos de maior incidência solar, a produção de energia fotovoltaica pode superar a demanda imediata da rede elétrica. Esse excesso de oferta, embora positivo em termos de geração limpa, cria desafios operacionais para o sistema, que precisa manter o equilíbrio entre produção e consumo.
Em alguns casos, operadores recorrem a cortes programados ou ao desligamento temporário de usinas solares para evitar sobrecarga e instabilidade. Essa prática, conhecida como curtailment, evidencia a necessidade de ampliar soluções de armazenamento e gestão inteligente da demanda, de modo a aproveitar plenamente a energia renovável disponível sem comprometer a confiabilidade do fornecimento.
Benefícios Sistêmicos dos BESS
Achatamento da curva do pato – reduz a sobreoferta diurna e desloca a exportação para horários de maior demanda.
Redução da demanda máxima – menor necessidade de acionamento de termelétricas caras e poluentes.
Estabilidade da rede – menos variações bruscas de frequência e tensão, maior previsibilidade para o operador.
Preços mais baixos e estáveis – redução de preços e maior eficiência sistêmica.
Modelo de Investimento
Assim como ocorreu com a expansão da GD, os investimentos em baterias residenciais seriam suportados pelas próprias famílias.
Financiamento: linhas de crédito específicas, parcelamento junto às distribuidoras ou bancos.
Retorno econômico: Redução da conta de luz. Remuneração pela exportação noturna. Valorização do imóvel.
Benefício coletivo: embora o investimento seja privado, os ganhos se espalham por toda a sociedade, com preços mais baixos e maior segurança energética.
Projeções de Expansão dos BESS no Brasil
Tomando como referência a expansão da GD entre 2020 e 2025 (de ~4 GW para 31,5 GW, crescimento de quase 8 vezes), podemos traçar cenários de adoção de baterias residenciais até 2030:

O caso australiano demonstra que baterias residenciais não são apenas um luxo tecnológico, mas um instrumento de política energética capaz de beneficiar toda a sociedade. O Brasil, com sua enorme base de geração solar distribuída, está pronto para dar o próximo passo: transformar painéis solares em usinas inteligentes, apoiadas por baterias.

Embora os investimentos sejam feitos pelas famílias, os benefícios sistêmicos – estabilidade da rede, preços mais baixos, menor uso de termelétricas – tornam os BESS uma solução estratégica para o país. Em um cenário acelerado, poderíamos atingir 25 GWh de armazenamento distribuído até 2030, posicionando o Brasil como líder mundial na integração de energia solar e baterias residenciais.
Daniel Lima
Empresário | Diretor Executivo da AGROSOLAR Investimentos Sustentáveis
Presidente | ANESOLAR (Associação Nordestina de Energia Solar)
Vice-Presidente | ARMAZENE (Associação Brasileira de Armazenamento de Energia)






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