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🎙️"Data Centers no Nordeste, a 'Sede' de água e 'Fome' de energia", com Daniel Lima

  • 27 de abr.
  • 4 min de leitura

A expansão dos data centers no Brasil começa a ganhar um novo eixo: o Nordeste. A combinação de alta disponibilidade de energia renovável, proximidade com cabos submarinos e incentivos regionais está atraindo investimentos pesados. Mas esse avanço traz um dilema cada vez mais evidente: como sustentar o crescimento de estruturas altamente intensivas em energia e água sem pressionar ainda mais os recursos locais?


Neste artigo, Daniel Lima, referência nacional em Energia Solar e Armazenamento de Energia, analisa os impactos ambientais dessa nova fronteira digital — e aponta os caminhos sustentáveis possíveis para equilibrar desenvolvimento, eficiência energética e responsabilidade ambiental.



Você costuma dizer que a inteligência artificial tem “sede de água”. O que isso significa?


Daniel: Significa que os data centers que sustentam a IA consomem enormes quantidades de água para resfriamento. Cada interação com sistemas generativos pode demandar entre 10 e 25 ml de água (no caso de geração de imagens pode demandar 1 litro), e em escala global isso chega a milhões de litros por dia. Em regiões semiáridas ou em crise hídrica, essa “sede” pode competir diretamente com o abastecimento humano e agrícola.



Você também costuma mencionar que a IA tem “fome” de energia?


Daniel: Sem dúvida. O treinamento de modelos massivos exige milhares de GPUs funcionando continuamente, e a operação diária multiplica esse consumo por bilhões de consultas. Segundo as previsões de carga para o Planejamento Anual de Operação Energética da CCEE/ONS/EPE, o consumo de energia do setor de Data Centers deve sair de 304 MWm em 2025 para 3.457 MWm em 2030, isso significa um crescimento superior a 11 vezes em 4 anos. Isso pressiona redes elétricas, aumenta emissões e eleva custos.

Quais são os impactos locais dessa expansão no Nordeste?


O Nordeste tem vantagens estratégicas, como abundância de energia solar e eólica, mas também desafios.

Daniel: A instalação de data centers pode gerar empregos e atrair investimentos, mas se não houver planejamento, pode agravar a escassez hídrica e pressionar a rede elétrica regional. É um equilíbrio delicado entre desenvolvimento e sustentabilidade.


Devemos ou não atrair Data Centers para o Nordeste?


Daniel: A questão central não é se devemos ou não atrair datacenters, mas como, onde e com quais contrapartidas. O país pode se tornar protagonista da economia digital global, aproveitando inclusive a energia limpa que hoje é desperdiçada no Nordeste, com apoio de tecnologias de armazenamento por baterias que garantem operação 100% renovável. Ou pode repetir erros de outras nações, permitindo que datacenters se tornem vilões ambientais e sociais.



Que alternativas tecnológicas podem mitigar esses impactos?


Daniel: No caso da água, há sistemas de resfriamento por ar e soluções fechadas que reduzem o consumo. Para energia, o caminho mais promissor no Nordeste é apostar em sistemas híbridos que integrem eólica, solar e armazenamento em baterias. Essa combinação garante fornecimento estável, aproveita a complementaridade das fontes renováveis e reduz a dependência de combustíveis fósseis.



Como os sistemas híbridos podem ser integrados à infraestrutura atual do Nordeste?


Daniel: O Nordeste já possui uma matriz renovável robusta, com destaque para eólica e solar. A integração se dá via sistemas híbridos que combinam essas fontes com baterias, garantindo estabilidade e reduzindo a intermitência. É uma evolução natural da infraestrutura existente.



Qual o papel das políticas públicas na viabilização desses projetos?


Daniel: Fundamental. Sem regulação clara e incentivos adequados, o investimento privado não se sustenta. Políticas públicas podem acelerar a adoção de híbridos, garantir segurança jurídica e direcionar recursos para regiões estratégicas.



Há exemplos internacionais de data centers que já operam com energia 100% renovável?


Daniel: Sim. Países nórdicos, como a Suécia e a Finlândia, já abrigam data centers que funcionam exclusivamente com energia renovável, aproveitando clima frio e abundância de fontes limpas. O Nordeste pode seguir esse modelo adaptado às suas condições.


Como equilibrar a atração de investimentos com a proteção dos recursos locais?


Daniel: Transparência e planejamento. É preciso exigir relatórios ambientais claros, definir limites de consumo hídrico e energético e envolver comunidades locais nas decisões. O investimento só é sustentável se gerar benefícios sociais e não apenas corporativos.



Qual a mensagem principal que você levará à Intersolar Nordeste?


Que a inteligência artificial só será sustentável se sua sede de água e fome de energia forem saciadas de forma responsável.

Daniel: O Nordeste tem condições únicas de liderar essa transição, mas precisa garantir que inovação tecnológica caminhe junto com justiça ambiental e social.



Qual é a importância de eventos como a Intersolar Nordeste nesse debate sobre data centers?


Daniel: A Intersolar é mais do que uma feira de energia. É um espaço de articulação entre tecnologia, política e sociedade. Aqui, conseguimos reunir especialistas, empresários e formuladores de políticas públicas para discutir como o Nordeste pode ser protagonista digital sem abrir mão de ser guardião ambiental.



O Nordeste precisa escolher entre desenvolvimento digital e preservação ambiental?


Daniel: Não. O Nordeste não precisa escolher entre ser protagonista digital ou guardião ambiental — pode ser os dois. A região tem abundância de sol e vento, e com sistemas híbridos que integrem eólica, solar e baterias, podemos garantir operação 100% renovável para os data centers.



Como transformar o potencial energético do Nordeste em vantagem competitiva para data centers?


Daniel: Hoje, parte da energia limpa gerada no Nordeste é desperdiçada por falta de armazenamento e integração. Cada megawatt de energia limpa que hoje é desperdiçado pode ser a base de um data center sustentável amanhã. Com planejamento e investimento em baterias, podemos transformar esse excedente em motor da economia digital.



E qual deve ser o limite para a expansão da inteligência artificial?


Daniel: O limite é a sustentabilidade. A IA só será inteligente de verdade se aprender a respeitar os limites da natureza. Isso significa transparência no consumo de água e energia, contrapartidas sociais e políticas públicas que garantam equilíbrio entre inovação e preservação.



Sobre o entrevistado


Um dos colunistas do Blog da SNW, Daniel Lima é economista com MBA em sustentabilidade e trajetória consolidada nos setores público, privado e terceiro setor. Referência em energia solar e armazenamento, preside a ANESOLAR, é vice-presidente da ARMAZENE e atua como consultor e palestrante, conectando visão econômica, inovação e transição energética no Brasil.



“As opiniões expressas nesta entrevista são de responsabilidade exclusiva do entrevistado e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial deste canal.”





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